Foto do mês #35 (Edição setembro de 2026): O começo de tudo

Tenho me dedicado intensamente ao ensaio Magnetosfera, uma coleção de auroras boreais e austrais em preto e branco. A ideia com esse ensaio é revelar padrões, formas, texturas e o fluxo do campo magnético invisível que protege a superfície do planeta e a vida da radiação solar. Com esse conjunto de fotografias, busco mostrar que, mesmo desprovidas de suas cores, as auroras continuam sendo um dos fenômenos naturais mais fascinantes do nosso Sistema Solar.

 

Apesar de ser uma manifestação do campo magnético terrestre, é no Sol que as auroras começam. Quando as partículas eletricamente carregadas do vento solar colidem com a atmosfera da Terra, os gases emitem luz. Essas partículas ficam presas dentro da magnetosfera, que as guia em direção às regiões polares do planeta, criando os fascinantes espetáculos de luz. Fotografar as auroras é relativamente simples nas regiões polares ou em latitudes médias. Mas as únicas formas de fotografar a atmosfera solar de onde partem as partículas, chamada de corona, é com equipamentos bastante sofisticados ou durante eclipses totais, como o de 12 de agosto de 2026. Então, não pude perder a oportunidade

 

O eclipse foi bastante breve mas muito emocionante. Após fazer as fotos da corona durante os poucos segundos de totalidade, necessárias para completar a série da Magnetosfera, tive alguns breves instantes para experimentar. Sabia que veria milhares de fotos parecidas com a que tinha feito, pois era o que muita gente também esperava ter. Então, com a foto garantida, e o brilho solar já despontando na sombra da Lua, comecei a fechar o obturador e ver o que acontecia com diferentes tempos de exposição. 

 

A mudança da luz era extremamente rápida e não dava para testar muito. Após as primeiras tentativas vendo o efeito sutil dos raios de luz, fechei tudo para f/54, aumentei o tempo de exposição para compensar as sombras e apertei o botão de fotografar. Fiz mais alguns ajustes de exposição correndo contra a velocidade da luz. Até que com algumas variações finalmente cheguei no que seria a foto que mais gostei daquele momento. A totalidade do eclipse já havia passado, mas a experimentação técnica, bastante arriscada naqueles segundos, garantiu a representação daquilo que eu buscava.

 

E assim surgiu a “foto do mês” com a última peça que faltava para montar a totalidade da Magnetosfera. Ironicamente, precisava de uma foto do sol, ausente durante os momentos propícios para ver o brilho das auroras. E mais, o começo de tudo chegou no final para abrilhantar a série. E o todo o brilho necessário veio logo de uma sombra.