Exposição “Langsdorff: A Expedição Fluvial 200 Anos Depois”

 

O salto tecnológico das revoluções industriais europeias e estadunidenses há dois ou três séculos marcaram um ponto de inflexão na história natural. Mudanças quantitativas no modo de produção e consumo de bens resultaram em outro modo de vida na Terra, qualitativamente diferente de tudo o que se conhecia até então. A aceleração da produção em consonância com a tentativa constante de subjugar os ciclos naturais causaram uma disrupção inédita na biosfera terrestre. Pela primeira vez na história, uma única espécie desenvolve a capacidade de atuar como uma forçante radiativa, transformando o Sistema Terrestre em uma escala de tempo sem precedentes. 

 

Nesse sentido, Francis Malvin Lee, curadora da exposição “Langsdorff: A Expedição Fluvial 200 Anos Depois”, reafirma que dois séculos representam apenas um microssegundo na história da espécie humana, mas foi tempo suficiente para alterar o planeta de forma muito significativa. Assim, com o objetivo de refletir sobre os impasses ambientais e civilizatórios que definem o século XXI, a partir das obras resultantes de uma das viagens científicas mais importantes do século XIX, a Expedição Langsdorff, a exposição reúne mais de uma centena de obras que incluem imagens, relatos de viagens, publicações e documentos da época, bem como produções contemporâneas realizadas nas mesmas regiões atravessadas pela expedição há duzentos anos atrás

Realizada pelo Instituto Hercule Florence (IHF), em parceria com Documenta Pantanal, Instituto Moreira Salles (IMS) e o Centro MariAntonia da USP, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM-USP), a exposição está dividida em dois espaços. O primeiro conta com os documentos históricos, exsicatas, desenhos e relatos produzidos durante a Expedição Langsdorff, da qual Hercule Florence teve um papel fundamental como desenhista e, por problemas de saúde dos demais membros, preservou toda a documentação da penosa viagem de Porto Feliz (SP) a Belém (PA), entre 1826 e 1829. 

Já a segunda sala é dedicada ao contraste entre o passado nada longínquo da expedição e o presente. Aqui, as fotografias de Lalo de Almeida, Miguel Chikaoka, Paula Sampaio, e as da minha série “O Brasil de Florence”,  atualizam e tensionam as paisagens documentadas por Hercule durante a Expedição Langsdorff, revelando “transformações profundas, marcadas pelo extrativismo econômico, por conflitos sociais e pela crise ambiental.” 

 

A partir das fotografias, fica evidente que os rios que Florence desenhou há 200 anos já não são mais os mesmos com a poluição e as inúmeras represas que inundaram grandes extensões de terra e apagaram cachoeiras do mapa. Os povos originários que ele encontrou, hoje vêem seus territórios ameaçados pelo garimpo, pelo agronegócio piromaníaco, sua bancada parlamentar ruralista e pelas mudanças climáticas causadas por um sistema econômico exótico ao seu modo de vida. As paisagens desenhadas por Hercule foram intensamente urbanizadas e o pouco do que segue aparentemente inalterado não está completamente livre da destruição, como o Salto Augusto, no Rio Juruena, onde já se especulou a construção de uma usina hidrelétrica. 

 

 

Antonio Florence, tetraneto de Hercule Florence, também ressalta como em tão pouco tempo os ecossistemas que seu antepassado conheceu foram profundamente alterados em tão pouco tempo. “O século XIX construiu o mundo em que vivemos hoje, inclusive o modelo de exploração que levou à devastação que vemos. Revisitar essa travessia é uma forma de entender como chegamos até aqui e de nos questionarmos quanto ao futuro que estamos construindo.” Para o IHF, “olhar para trás, aqui, não é nostalgia. É um modo de entender o presente com mais precisão, e de decidir, a partir daí, o que ainda pode ser preservado.”

 

Em cartaz até o dia 26 de junho, a exposição também conta com uma mostra de cinema, debates e lançamentos de livros inéditos do IHF. Todas essas iniciativas, em complemento com as fotografias que denunciam a escala e o ritmo da destruição da Terra, têm o objetivo de encarar essa problemática ambiental de frente. Usando as marcas do passado, a exposição instiga pensar o futuro, nessa estreita janela de oportunidade que ainda existe para frear o papel do modo de vida contemporâneo como potencial catalisador de uma catástrofe ambiental em escala planetária.

 

 

A exposição está aberta de segunda a sexta, das 8h30 às 20h30; sábado, das 9h às 13h na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin – r. da Biblioteca, 21, São Paulo, com entrada grátis. Acompanhe a programação pela página do IHF.