Photo London 2026 – exposições

 

No texto anterior sobre a feira de arte fotográfica Photo London 2026, falei das minhas impressões gerais sobre como é estar em um evento de negócios. Agora, quero mostrar alguns dos trabalhos expostos que mais gostei. Como mencionei no outro texto, a maior parte das galerias dedicou suas mostras a editorias e ensaios intimistas de retratos de rua ou cenas do cotidiano de uma família, temas que me prendem menos minha atenção do que paisagens e fotojornalismo.

 

Em primeiro lugar, gostei de participar do evento pela possibilidade de estar em contato com a elite mundial de temas fotográficos que sou inclinado a olhar menos. Como naturalmente não me debruço tanto na atualidade da fotografia “conceitual”, saber em quais nomes as galerias estão apostando, e em quais projetos ou obras específicas, ajuda no trabalho de pesquisa e estudo para novas abordagens, ou simples contemplação daquilo que meus olhos não estão acostumados.

 

Mas, como também já falei no outro texto, o que mais gostei foi de poder ver na parede algumas obras e artistas que, em geral, já conheço e só tenho contato por meios digitais. Já logo após a entrada da feira, a galeria Iconic Images (Londres) mostrava uma série de fotografias de momentos históricos ou personagens famosos. E, de longe, logo vi no meio daquela parede cheia de coisa pendurada, uma baleia que sabia que tinha sido fotografada por Paul Nicklen. Essa foto me chamou a entrar e, no outro canto da mesma parede, estava a edição 3 de 6 da “Mulher com o Ganso”, que Cristina Mittermeier fotografou na China em 2008.

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Woman and the Goose – Cristina Mittermeier, 2008.

Continuando o errático trajeto pela feira, o que mais vi relacionado a paisagens, e fotografia de natureza em geral, foram detalhes de florestas temperadas mimetizando pinturas impressionistas do início do século XX. Essa é uma moda que vejo em concursos fotográficos, talvez explicada pela inserção que a técnica, alegando a busca pelo ar fresco, tem no mercado de arte.

Fotografias por Didier Goupy

Outra moda de concursos que vi em inúmeras galerias foram as paisagens estilo Michael Kenna. As longas exposições em branco e preto de alto contraste e formato quadrado são a assinatura do longevo e prestigioso trabalho de Kenna, que inspirou uma geração de artistas, alguns dos quais sigo e admiro muito, além dele próprio. Representado na feira pela galeria The Photographer’s Gallery, foi uma boa surpresa ver uma parede com trabalhos de diversas épocas do artista.

Fotografias por Mchael Kenna

 

Ainda na seara das consagradas fotografias em preto e branco, a galeria islandesa Qerndu, apresentou várias obras do conterrâneo Ragnar Axelson, para mim um dos maiores documentaristas visuais do Ártico. Me apaixonei à primeira vista por suas obras quando as conheci em Reykjavik, em 2023, e não canso de ver seu trabalho.

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Polar bear tracks on the sea ice – Ragnar Axelson, 2017.

 

Mas não foi com o preto e branco de Axelson na Qerndu que passei a maior parte do meu tempo na feira. A minha maior surpresa na feira foi com a galeria Salto Ulbeek que, em parceria com a “Real Sociedade Geográfica” do Reino Unido, trouxe pela primeira vez as impressões em platino-paládio dos negativos das primeiras expedições Antárticas. Com a exposição “Antártica mais ao sul”, a galeria colocou lado a lado a segunda expedição a chegar ao Pólo Sul (apenas cinco semanas após a primeira), fotografada por Herbert Pointing e liderada por Robert Scott, e a trágica história do naufrágio do Endurance no mar de Wedell, na expedição conduzida por Ernest Shackleton e fotografada por Frank Hurley. Os livros com todas as fotos resgatadas das respectivas expedições também estavam à mostra e algum dia gostaria de tê-los na minha pequena e seleta biblioteca.

ExposiçãoAntartica further south exhibition”, com Herbert Pointing e Frank Hurley na galeria Salto Ulbeek.

 

Essas expedições, bem como a de Amundsen, a primeira a chegar no polo sul geográfico, carregam histórias fantásticas que valem um breve parágrafo. Scott morreu durante o retorno do polo Sul ao acampamento base e trazia consigo os primeiros fósseis descobertos na Antártida. Já a expedição de Shackleton poderia ter entrado para a história como um desastre completo, mas com extrema disciplina e determinação, toda a tripulação foi resgatada com vida cerca de dois anos após o naufrágio do Endurance. O livro “Endurance: a incrível viagem de Shackleton”, por Alfred Lansing, me marcou pela capacidade da tripulação de sobreviver no gelo. Até hoje sinto um pouco de vergonha quando digo que estou com frio, pois ainda penso no que a equipe de Shackleton passou em dois anos na Antártida.

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Endurance por Frank Hurley, 1915

 

Descobertas

Até aqui comentei de artistas e trabalhos já familiares, mas também quero destacar duas descobertas que me chamaram atenção na feira. Selecionei os trabalhos da artista argentina Claudia Leonelli e do australiano Edward Burtynsky, pois ambos adotam a perspectiva aérea para retratar paisagens em modificação, ressaltando as formas e texturas extremas. O olhar em perspectiva de vista de pássaro de Claudia Leonelli está na transformação natural das paisagens costeiras argentinas, onde o Oceano molda constantemente as praias e estuários.

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Fotografias por Claudia Leonelli

 

Por fim, o trabalho do australiano mostra locais impactados pela mineração. Sendo uma das primeiras galerias após a entrada, as fotografias chamam atenção de cara pelas dimensões e, principalmente, pela textura. A técnica fotográfica e de impressão dão uma profundidade impressionante às obras, com sensação de tridimensionalidade quando vistas de longe, com um impacto visual imediato e único em toda a feira.

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Fotografias por Edward Burtynsky.