Pela primeira vez em um evento de negócios – Photo London 2026

 

Neste mês de maio tive a oportunidade de participar pela primeira vez de uma feira de arte fotográfica. Photo London não é um festival como os que estou acostumado e gosto muito de frequentar. Também não é um espaço com muitas exposições acontecendo simultaneamente. É uma feira de arte fotográfica, portanto, um local de negócios.

 

Em sua décima primeira edição, a feira aconteceu de 14 a 17 de maio de 2026 no centro de eventos Olympia, na zona oeste de Londres. Foi a primeira vez da feira neste local, com mais espaço, mais galerias, mais editoras, mais artistas e mais livros sendo vendidos do que nas edições anteriores. 

 

Vista geral da feira

 

E tudo isso tem um preço… ou um filtro. Cada ingresso diário por 32 libras (quase 220 reais), considerado bem caro até para quem mora na caríssima Londres, não deixa dúvidas de que a feira não tem o objetivo de ser inclusiva, democrática ou aberta a um público novo em busca de conhecer a fotografia como forma de arte. Ao contrário, é hermética e otimizada para vendas.

 

Para Sophie Parker, diretora da feira desde 2024, um dos atrativos da arte fotográfica é sua acessibilidade para colecionistas. De fato, os preços das fotografias mais caras já vendidas em leilão até hoje não chegam aos pés das pinturas mais caras da história e, em um mercado de arte global que diminui em volume financeiro mas aumenta em volume de obras comercializadas, fotografias em edições limitadas podem emergir como importantes veículos de especulação financeira. 

 

As obras mais acessíveis na feira eram de tiragens maiores (de 30 a 50 reproduções), em tamanhos menores (próximos a um papel A4), negociados a partir de 100 libras. Já o preço médio de obras com tiragens mais exclusivas (de 5 a 15 reproduções) e tamanhos mais apropriados, em cerca de 45 x 60 cm, rondavam as 3000 libras (mais de 20 mil reais no momento em que escrevo). O que para o bilionário mercado anual de arte, do qual eu e provavelmente você que está lendo não é parte, são preços muito abaixo dos praticados em outras esferas de expressões artísticas, como das pinturas. 

 

Preços à parte, poder estar em um evento como esse é uma oportunidade única para contemplar, estudar e ver o que está na vanguarda do mercado, portanto das tendências mundiais. E como as narrativas são o que definem a arte conetemporânea, a fotografia não fica ilesa em sua expoente mercantil global. Por isso, grande parte da feira, bem como de seu material de divulgação, estava relacionada com narrativas visuais, explícitas ou não, materializadas em retratos do cotidiano (que carregam histórias intimistas reveladas pelos textos curatoriais), performances, buscas auto-identitárias, cenários cinematográficos posados e a renovação de trabalhos produzidos no passado longínquo por artistas que já têm uma boa inserção no mercado mas que ainda não haviam sido expostos. Também haviam iniciativas um pouco mais ousadas, com imagens totalmente geradas por modelos de aprendizado de máquina, bem como sua contrapartida “baseada em lentes”, com fotos até pouco tempo atrás consideradas “imperfeitas”. Aqui, a sujeira no sensor da câmera, amplificada em uma paisagem de mais de um metro de lado menor, por exemplo, serve como um captcha, atestando a qualidade humanística da obra. 

 

No meio disso tudo, existem histórias fortíssimas e trabalhos documentais impressionantes, como o de Jane Evelyn Atwood, que fotografou mulheres no sistema prisional da Europa e Estados Unidos, do fotojornalismo ativista pelas vidas pretas de Misan Harriman e muitas outras. O que não deixa de surpreender, porém, é a busca de narrativas onde elas nunca existiram, como exemplo mais caricato das fotos de moda feitas em estúdio exclusivamente para a Vogue nos anos 1990. Há casos em que o esforço do texto curatorial para convencer a mensagem por trás das fotos é tão intenso que entrega o oportunismo de um trabalho reciclado em uma embalagem de luxo. Afinal, participar de uma feira como essa é astronomicamente mais caro para uma galeria do que para um fotógrafo curioso como eu, pois há o aluguel do espaço, montagem, transporte das obras, seguro, hospedagem, alimentação da equipe etc, então sobra pouca margem para erro. Por isso, apostar em nomes já consagrados, com trabalhos já conhecidos e aceitos, focando nas práticas fotográficas contemporâneas convencionais, significa reduzir o risco dos negócios. 

 

O trabalho de Misan Harriman exposto durante a feira Photo London 2026

 

Não sei dizer se a feira atingiu as expectativas comerciais das galerias, mas vi muitas obras vendidas já no penúltimo dia da feira, algumas negociações em andamento, bem como relatos de galerias que venderam cem mil libras (quase 700 mil reais) em três obras somente no primeiro dia. Por isso, e pela aparente lotação da sala vip reservada a colecionistas, tendo a acreditar que a feira foi sim bem sucedida em seu objetivo, o que significa que edições maiores tendem a acontecer nos próximos anos, consolidando ainda mais a fotografia contemporânea no circuito mais amplo do mercado de arte. 

 

Mas com mais de cem galerias e de 50 editoras sob o mesmo teto, para mim pouco importam os negócios. Fui para conhecer o mercado, mas mais que isso, para conhecer trabalhos novos e contemplar fisicamente aquilo que de outra forma dificilmente teria a oportunidade de ver fora do meio digital. E posso dizer que tive gratas surpresas ao descobrir que no seleto mercado de fotografia contemporânea também existe um pouco de espaço para a documentação mais tradicional e temáticas ambientais, o que me trouxe para a fotografia como técnica e posteriormente como forma de expressão. 

 

As obras voltadas às temáticas ambientais que mais gostei de ter visto ao vivo receberão um texto à parte aqui no blog, já no mês que vem. Por ora, basta dizer que participar da feira Photo London valeu cada uma das 32 libras, ou o preço que pagaria em um bom livro de fotografia no Brasil. Mas livro nenhum teria me ensinado tão bem sobre como funciona o mercado da arte como estar em campo, vendo as negociações acontecendo e entendendo os rumos que a arte está tomando. Admito que saí cansado de ver tantas exposições e tanta gente, mas satisfeito e cheio de ideias. Recomendo a experiência, pois uma feira deste porte não tem absolutamente nada a ver com os queridos festivais de fotografia, organizados com mais paixão do que recursos.