Porque uma fotografia deve ser impressa

 

Há cinco anos, ouvi do fotógrafo brasileiro de natureza Araquém Alcantara que “a fotografia só se completa com a foto impressa em um livro ou pendurada na parede”. Adotei essa ideia como uma verdade universal e, alguns meses depois, muitas das minhas fotos estavam nas minhas paredes e de outras pessoas. Tive a sorte de ganhar duas impressoras antigas e, com algum esforço, consegui fazer uma delas funcionar. Essa impressora se tornou inestimável durante a pandemia. Devo confessar que, do ponto de vista de um fotógrafo, imprimir nossas próprias fotos é imensamente gratificante. Há uma satisfação única em ver o trabalho ganhar vida em forma física, especialmente quando está pessoalmente envolvido no processo de impressão.

Além da satisfação pessoal de ver a fotografia, pouco a pouco, saindo da impressora, olhar para o resultado final na parede é outra experiência completamente diferente e agradável. No entanto, cada experiência está relacionada a um papel na fotografia: o artista e o consumidor. Uma única pessoa pode desempenhar ambos os papéis ativamente. Na verdade, sempre me surpreendo com artistas das lentes que não consome o trabalho de colegas de arte (e conheço algumas pessoas assim). Quem consome arte fotográfica, no entanto, não necessariamente precisa ser artista da fotografia, por exemplo, quem coleciona revistas ou impressões de arte relacionadas à fotografia.

 

A fotografia impressa é o que une ambos os papéis, não importa se são representados em uma única pessoa (artista-consumidora) ou várias pessoas (artista e muitas consumidoras). Assim, as fotos impressas conectam emoções , mesmo sem conexões físicas entre artista e consumidora.

 

Do ponto de vista de quem consome, independentemente do tipo de fotografia, por exemplo, feita com o próprio telefone ou uma impressão fine art de edição limitada, o valor de uso da foto é a satisfação pessoal esperada de uma boa lembrança de um momento, lugar ou evento, ou a decoração agradável de um espaço físico (uma sala de jantar, cozinha, corredores, locais de trabalho etc).

 

Do ponto de vista artistíco, existem várias razões para imprimir uma foto, dependendo do caso. Para alguém que tenha a fotografia como passatempo, pode-se dizer que se aplicam as mesmas razões de quem consome fotografia. Além disso, imprimir irá aprimorar as habilidades fotográficas, de edição, curadoria e impressão, tornando a pessoa uma “fotógrafa melhor”. Se for profissional, todo o exposto é válido, no entanto, a razão mais decisiva para imprimir é o marketing e a renda. Melhorar a técnica é um meio de melhorar as vendas (com muitos outros fatores por trás, obviamente, como aprender a vender). Ao ganhar a vida com a fotografia, imprimir é uma parte essencial do trabalho.

 

No entanto, após alguns anos estudando impressão, fotografia e história da arte, tudo isso ainda não foi suficiente para me justificar a verdade universal da completude do processo fotográfico com a impressão. Questionei esta citação e procurei uma explicação além da nostalgia do laboratório fotográfico. Eu realmente queria entender, do ponto de vista de artista, a razão para a impressão além das emoções e dos lucros. Por que eu estava imprimindo e querendo imprimir mais, publicar fotografias em livros, vender impressões fine art? Observação: isso não está relacionado ao motivo pelo qual eu queria produzir mais fotos ou ensaios, está relacionado apenas ao processo de impressão.

 

Então, um primeiro rascunho deste texto surgiu em outubro de 2022, após assistir a uma entrevista com o vice-presidente da Adobe, Marc Levoy, e discuti-la com alguns amigos. Em um determinado momento, Levoy afirma o seguinte sobre a alta faixa dinâmica das telas: “uma impressão fotográfica, algo que você segura na mão, tem uma faixa dinâmica de apenas cerca de 50 para 1, o que significa que as partes mais brilhantes da fotografia podem ser apenas 50 vezes mais reflexivas do que sua parte escura. Mas a faixa dinâmica dessas telas [da Apple] pode ser muito maior, mais de mil para um”.

 

A verdade estava lá o tempo todo, brilhando tão intensamente quanto um monitor calibrado ou a tela de um smartphone, e eu não conseguia ver. Tá bom, eu sempre soube que olhar as fotos de um dispositivo não era o meu objetivo, porque cada tela exibirá as cores, as temperaturas, o brilho, os contrastes e os tons de maneira diferente. Quem me disse pela primeira vez para não confiar nas telas para apreciar minha arte foi o mesmo profissional que imprimiu minhas primeiras fotos em papel museológico e me deu as duas impressoras antigas. Assim, cheguei à conclusão de que a única maneira de controlar todo o processo, garantindo que as pessoas vejam a fotografia como eu quero que ela pareça, é imprimindo. Isso para mim foi a peça que faltava no quebra-cabeça da completude da arte fotográfica.

 

Talvez seja um pouco chato aprofundar nisso, mas peço que tenha paciência. Eu sei que as diferenças fisiológicas e emocionais entre indivíduos de uma mesma espécie (a humana, no caso) faz com que cada pessoa veja (e sinta) a fotografia de maneiras diferentes. No entanto, o único meio que artistas têm de garantir que sua fotografia não pareça muito escura ou muito clara, que os pretos não sejam azuis, que os vermelhos não sejam magenta, que a nitidez esteja boa, que o enquadramento seja agradável, etc., é provando-a, imprimindo, imprimindo novamente e outra vez e quantas vezes forem necessárias para alcançar o resultado final esperado. Se quem consome vai apreciar a aparência da impressão é outra história. O importante é que a arte só está completa quando impressa, porque é a única ferramenta que artistas das lentes têm para exibi-la como deseja que pareça.

 

Beleza, aqui você pode estar pensando que isso é óbvio demais e que fiz papel de idiota por vários anos tentando encontrar paz de espírito com meu propósito de imprimir. Assumo que estava com um pouco de vergonha de publicar o primeiro rascunho, lá atrás em 2022, com uma consideração tão óbvia sobre por que deveria imprimir minhas fotos. Então, no início de janeiro de 2024, decidi pesquisar no Google “por que imprimir fotografias” (fiz a pesquisa em inglês com a sentença: “why printing photographs”) e os resultados me surpreenderam MUITO. Também perguntei ao grande papagaio da internet, o ChatGTP, mas sem surpresa. Todas as minhas descobertas no Google foram replicadas por ele sem variações, então talvez discutirei essa “inteligência” na próxima publicação do blog.

 

Voltemos ao Google. De cinco a oito, ou até mesmo de uma a onze “razões para imprimir suas fotos”, ou “por que é uma boa ideia imprimir suas fotos”, compilei e analisei os pensamentos na blogosfera. Em apenas 0,35 segundos, o Google retornou 4.190.000.000 resultados. Obviamente, eu nunca olharia todos, então decidi ler, na ordem sugerida pelo Google, as primeiras cem páginas, excluindo vídeos do Youtube, artigos da Wikipedia e serviços de impressão de fotos. Após 313 páginas “relevantes”, o Google parou de exibir mais resultados, então tive uma amostra representativa, com um intervalo de confiança de 95% e um erro estimado de 5,54%.

 

As estatísticas são irrelevantes, pois apenas 47 páginas estavam realmente discutindo as razões para imprimir, disponíveis nesta planilha. Você não precisa ler as 47 páginas para se acostumar com as razões comuns. Em resumo, a blogosfera compilou 18 razões explícitas para imprimir uma foto, como mostrado na tabela abaixo. Mas apenas os dois primeiros artigos já mencionavam as primeiras 9 (50%) razões comuns, e mais de 70% das razões já foram apresentadas nos primeiros seis artigos. O artigo quantitativamente “mais completo“, com 12 das 18 razões, estava em 30º lugar no ranking do Google. Na minha opinião, é uma boa publicação, mas muito superficial. No entanto, está entre os únicos que mencionaram minha razão para imprimir.

 

Motivo

# de artigos (47 em total)

1. Memórias

33

2. Tangibilidade/ Experiência física

31

3. Longevidade das impressões

22

4. Backup

18

5. Satisfação pessoal

16

6. Presentear

13

7. Decoração

13

8. Melhorar habilidades fotográficas

12

9. Marketing

11

10. Completar o processo artístico

9

11. Aprender novas habilidades (edição/impressão)

8

12. Inspiração

8

13. Melhorar habilidades curatoriais

7

14. Baixo custo / facilidade

4

15. Mostrar a verdadeira visão

3

16. Explorar a criatividade

3

17. Cabe em qualquer espaço

1

18. Liberar espaço em disco após imprimir

1

*motivos em italico são principalmente para artistas. Todo o resto se aplica a quem consume ou a ambas.

 

Obviamente existem razões sobrepostas, e minha interpretação de algumas pode não coincidir com a interpretação de outras pessoas, mas o papel de ter a imagem como algo para lembrar, “valorizando memórias”, é de longe a razão mais comum, apresentada em 70% dos artigos. Seguindo, a tangibilidade da foto impressa como uma experiência física única é mencionada em 65% dos blogs.

 

Então, onde está a surpresa? Apenas três artigos, incluindo o “mais completo”, citaram minha razão óbvia de por que quero minhas fotos impressas. O primeiro a citar isso estava em 25º lugar no ranking do Google. Depois dessa pesquisa, decidi que este texto merecia ser aprimorado e publicado. Talvez não seja tão óbvio que a arte da fotografia só esteja completa quando impressa porque é assim que a artista quer que a foto pareça. Se isso não é óbvio para artistas, será óbvio para quem consome? Até que ponto artistas da luz são conscientes do papel de testar e imprimir várias vezes antes de colocar suas fotografias no mercado? Foi um segredo guardado entre as melhores pessoas do mercado fotográfico? Não sei. Talvez apenas uma verdade universal permanentemente inquestionada no senso comum da fotografia.

 

A “completude” do processo fotográfico artístico é explicitamente citada em nove artigos, sendo que o primeiro aparece em sétimo lugar no Google. No entanto, apenas um deles cita isso como prova da arte final.

 

Há outras razões interessantes que valem ser mencionadas aqui, até porque outras publicações sobre o tema seriam demais. 1) há alguém que apaga as fotos após a impressão e afirma que isso libera espaço de armazenamento no disco; 2) a fotografia se encaixa em todos os espaços, e isso é relativamente verdadeiro. Achei interessante porque nunca ouvi isso como motivo para ter uma impressão na parede; e 3) imprimir permite que artistas explorem sua criatividade, testando diferentes composições, cores etc.

 

Outra razão engraçada, mencionada em quase 40% dos artigos, é que uma impressão serve como backup. Parece um pouco estúpido fazer backup de fotos digitais com impressões, em vez de fazer um backup realmente bom dos arquivos digitais. Alguns afirmam que as impressões são indestrutíveis, o que está longe de ser real por uma série de motivos (enchentes, incêndios, degradação de tinta e papel etc).

 

Imprimir fotografias para dar de presente também chamou minha atenção. Não porque foi mencionado muitas vezes, mas foi exatamente o que fiz no mês passado quando deixei meu emprego. Imprimi 26 fotos para presentear colegas de trabalho e até agora estou recebendo comentários adoráveis.

Por fim, a maioria das razões que encontrei em minha rápida pesquisa no Google são do ponto de vista de quem consome fotografia, provavelmente porque as publicações estão tentando vender um produto, seja uma foto impressa ou um serviço de impressão. Não importa o papel que você desempenha, aproveite o inestimável valor de uso das fotografias penduradas na parede, ou dos fotolivros, ou das revistas – como memórias, experiências ou conquistas pessoais. Como artista, quero mostrar minhas fotos da maneira como acredito que devem ser vistas. Importa menos se isso reflete vendas, inspiração, admiração, críticas negativas ou ódio. Obviamente levo tudo isso em conta e é uma parte importante da minha carreira, mas eu imprimo para exercer ambos os papéis, como um artista que consome e aprecia o processo completo da arte da fotografia.