Foto falida #7: Uma tempestade de raios na janela do avião

 

Estar num avião voando ao lado de uma tempestade com raios é o que a maioria das pessoas gostaria de evitar a qualquer custo. Para mim seria uma oportunidade de finalmente fazer uma boa foto noturna de raios, algo que venho tentando há algum tempo. Essa seria ainda mais especial, pois tinha uma vista privilegiada das nuvens carregadas, que eram desenhadas pela luz intensa das descargas elétricas, contrastando com a escuridão do solo, permeado pelo mosaico das ilhas urbanas de poluição luminosa.

 

Fotografar das janelas de avião é um desafio e tanto, principalmente de noite. Elas geralmente são sujas e refletem toda a iluminação da cabine, desde as mais sutis (como os sinais de proibição ao cigarro) e piora com o brilho mais intenso possível da tela da pessoa sentada ao lado que está maratonando filmes enquanto curte seu terceiro sono. Por isso há uma série de técnicas sofisticadas para fotografar em janelas de avião, sendo a mais importante a capacidade de envolver toda a extensão do acrílico em qualquer material opaco que escureça o ambiente local. Esses materiais variam com a disponibilidade e criatividade do momento e vão de mantas, blusas e sacolas, até a camiseta do corpo ou a própria mochila da câmera. 

 

Mas viajando de Belém a Campinas recentemente, meu desafio para fotografar os raios da janela do avião antecedeu a criação de um estúdio improvisado na cabine para que a foto não refletisse alguma cena de Mad Max. Antes de mais nada, precisava acordar as pessoas ao lado para poder levantar e pegar a câmera no compartimento de bagagens.

 

Assistindo de camarote a aproximação do avião à tempestade, fui ficando ansioso para levantar. Me julguei por não ter levado a câmera no colo e estar preparado para aquele momento inesperado que desejava há anos. E também por não ter a coragem de acordar duas pessoas que não tinham nada a ver com minhas expectativas só para fotografar aquilo que estava aterrorizando a tripulação. Então, o Universo mandou um nítido sinal de que aquele seria o momento de fazer uma grande foto. A própria turbulência do avião causada pela tempestade fez o favor de acordar meus vizinhos e tomei coragem para levantar.

 

Mas foi exatamente o que parecia a solução mais elegante para meu problema de ter vizinhos sonolentos que resultou neste texto. Ao levantar, as luzes de atar o cinto de segurança se acenderam enquanto um comissário de bordo já vinha percorrendo rapidamente o corredor da aeronave, obrigando todas as pessoas a se sentarem. Nem tive tempo de implorar para ele tentar revirar minha mochila para tentar encontrar a câmera, soterrada nos escombros das roupas sujas de uma semana fora de casa. O comissário se sentou com a mesma rapidez de um raio, apertou seu cinto de segurança, as luzes da cabine se apagaram, meu vizinho desligou a tela brilhante do Mad Max e eu pude assistir, inconformado com a câmera guardada, ao espetáculo da tempestade sem nenhum reflexo na janela que pudesse estragar a foto que perdi para sempre.