Foto falida #1 – Ubatuba

(Texto publicado originalmente em uma versão anterior do blog em 3 de maio de 2023)

 

Em 1957, Henri Cartier-Bresson disse ao jornal Washington Post: “Fotografia não é como pintura. Há uma fração de segundo criativa quando você está fotografando. Seu olho deve ver uma composição ou uma expressão que a própria vida te oferece e você deve saber com intuição quando fotografar. Este é o momento da criatividade na fotografia. Oops! O momento! Uma vez que você o perde, esse momento se foi para sempre”. 

 

A vida das personalidades na fotografia é cheia de frases de efeito e, óbvio, grandes fotografias. Mas nem tudo são flores. Aqueles momentos escapam para sempre com muita frequência. 

 

Uma vez li uma crônica do Araquém Alcântara sobre uma foto perdida de uma onça pintada no Pantanal. Estou quase certo que era no livro “Foto Falada” do fotógrafo e curador Eder Chiodetto em diálogo com Araquém. Nesse momento em que não tenho acesso ao livro, recorro à memória para comentar essa fábula, podendo estar errado: segundo Araquém, o assistente havia mudado configurações da câmera na noite anterior e o fotógrafo não as conferiu antes de sair para campo. Ao amanhecer, o encontro repentino com a onça pegou todos de surpresa e o fotógrafo, sem se dar conta de seu equipamento, acabou perdendo a foto do animal. Quando viu já era tarde demais… o momento se foi. 

 

Enquanto lia esse relato não parava de pensar – além da responsabilidade de quem fotografa em dominar o equipamento – em várias fotos que perdi. Não somente por que deixei de verificar as configurações da câmera, mas por diversas circunstâncias em que vários momentos ficaram gravados somente na lembrança (alguns até com dor no coração).

 

Por isso a inspiração de escrever sobre as “Fotos Falidas”, aquelas lembranças de possíveis momentos decisivos que se foram para sempre. Penso no futuro em desenhar algumas dessas cenas, pois talvez a visão que tive fosse melhor do que a foto possível. Mas por ora me contento em contar. 

 

A primeira de todas as lembranças de fotos que gostaria de ter feito, mas que perdi, foi em Ubatuba. Mais especificamente na praia Vermelha do norte. Foi logo quando comecei a me interessar de verdade por fotografia. 

 

Essa praia é muito frequentada por surfistas por conta da sua condição especial dentre muitas outras praias de Ubatuba: é voltada ao leste, por isso recebe as ondas atlânticas em boa parte de sua extensão, sendo um dos vários lugares ideais para o esporte nas mais de cem praias do município.

 

O momento perdido aconteceu na BR-101 em um bate-volta (a expressão valeparaibana para um dia ou fim de semana ou um dia na praia). A rodovia está bem próxima ao mar nesse ponto e há um lugar onde é possível estacionar e fazer retorno. De passagem por esse local, sentido sul na BR, havia do outro lado, sentido norte, um carro de um surfista parado no acostamento, perto da areia. 

 

Era um dia de céu muito limpo e azul, e o mar estava verde e branco das espumas das ondas. Azul e verde são cores ditas “análogas” por quem se interessa por teoria de cores. Ou seja, em um círculo onde se projetam radiações com diferentes comprimentos de onda, aquelas que correspondem ao que chamamos de azul e verde estão lado a lado. Ao lado do azul estaria o violeta e, do verde, o amarelo.

 

Pois complementando esse cenário de céu azul e de mar verde, estava um surfista, sem camisa e de bermuda violeta, tapando o sol com uma das mãos para observar o estado das ondas. Ao lado do surfista, seu carro estacionado: um fusca amarelo carregando em cima uma prancha da mesma cor. 

 

Quando vi a cena o pensamento criativo foi: “essa cena vai dar uma foto muito boa”. Era quase metade do “círculo de cores” em uma composição que contava uma história quase atemporal. O impulso foi pisar com tudo no freio. Fiz o retorno. 

 

Nesse tempo de virar o carro, acho que o surfista da bermuda violeta decidiu que aquele mar verde sob o céu azul não estava suficientemente digno para sua prancha amarela. Pegou seu fusca e sumiu na 101. Não sei se seria uma grande foto, mas o momento se foi para sempre – e com ele essa foto.