Foto do mês (edição Dezembro de 2025): Bonito de longe

No mês passado, foram divulgados os resultados oficiais da perda de vegetação no Cerrado e na Amazônia pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE. Seguindo um ritmo de desaceleração ano após ano, os resultados vêm sendo bonitos de longe, mas tenebrosos quando olhados mais minuciosamente. 

 

Foram registrados 11,08% e 11,49% de redução na área convertida para usos antropogênicos na Amazônia e Cerrado, respectivamente, no período de julho de 2024 a julho de 2025, se comparado com o mesmo período anterior. À primeira vista, temos o que comemorar, pois foram quase as menores taxas anuais em toda a série histórica analisada, sendo a segunda menor para o Cerrado (desde 2002) e a terceira menor na Amazônia (desde 1988). 

 

Mas os dados brutos não deixam dúvida: foram 5796 km² desmatados na Amazônia e 7235 km² perdidos de Cerrado, o que somados à área já convertida é uma imensidão de biodiversidade devastada. Especialmente no Cerrado, boa parte da vegetação removida entre 2024 e 2025 foi no estado do Maranhão, onde ainda restam as porções contínuas mais importantes de Cerrado relativamente bem preservadas

 

É preciso reconhecer o esforço governamental para a redução do desmatamento ilegal na Amazônia, que constituiu 90% da área mapeada pelo INPE. Mas condicionar a conversão dos ecossistemas mais biodiversos do mundo a uma questão legal é irracional. Só no Cerrado, 34% da vegetação restante é passível de ser transformada em soja e pasto por vias legais.

 

Combater o desmatamento da Amazônia e remoção da vegetação do Cerrado dentos dos limites da legalidade nunca será suficiente. Mais da metade do Cerrado já foi perdida e sua recuperação é extremamente difícil e cara no curto prazo, e só uma política de intolerância à expansão agrícola pode salvar esse sistema eco-climático formado pelo complexo Amazônia-Cerrado. 

 

Esta edição da foto do mês, em uma região de transição entre savana e floresta, não olha para o copo meio cheio, pois ainda que a taxas menores, ele continua esvaziando. O “pouco” que resta é sensível demais para mais pressão e bonito demais, de longe e de perto. Lutemos para que assim sejam os dados dos próximos anos.