Foto do mês (Edição Agosto de 2026): Efêmera
Escolher uma foto que representasse meu curto período em um pequeno espaço do extremo sul da China foi um desafio imenso, assim como tudo por lá. Estive em Jinghong, capital da região autônoma de Xishuangbanna, para um congresso, que aconteceu em um hotel bem ao lado da feira noturna do bairro Gaozhuang. Assim como outras feiras noturnas na China, ela é carinhosamente chamada de feira “das estrelas” (Starlight night market) por conta das centenas (talvez milhares) de luminárias que são acesas após o pôr do sol.
Em meio palcos com apresentações musicais, frutas, pescados, cogumelos, comidas, roupas, restaurantes e bares, mais de três mil barracas oferecem um pouco de tudo o que há no mundo, particularmente no mundo da etnia Dai, uma das 56 etnias oficialmente reconhecidas pela República Popular e a principal cultura e população de Xishuangbanna. Os povos Dai também habitam os países vizinhos, como Mianmar e Laos, fronteiriços com Xishuangbanna, e também o Vietnã e a Tailândia, com os quais compartilham semelhanças linguísticas, culturais, religiosas, éticas, estéticas e culinárias.
Em meio a tanta gente, barulho, cores, cheiros e sabores, encontrei minha foto do mês onde menos esperava. Passeando após o fim das atividades do congresso, cheguei à feira por uma entrada que dava uma visão panorâmica do local. Então, era natural perder um tempo fotografando por ali para mostrar aquela imensidão contrastando com os recentes, modernos e imensos edifícios da cidade. Mas um agrupamento de gente em uma barraca específica me chamou atenção. Na hora não entendi muito bem o que estava acontecendo ali, mas a luz, a textura, os escritos, os tecidos ao fundo e a disposição de cada pessoa com relação ao meu ângulo de visão me atraíram.
Fui até a barraca e concluí que era um local que fazia tatuagens temporárias, impressão confirmada pela tradução dos escritos na foto com ajuda de aplicativos. Aquilo então me pareceu uma metáfora bastante precisa do que eu estava vivendo na China. As tatuagens feitas ali duravam somente de 7 a 15 dias, um tempo muito curto exatamente como a minha viagem. Mas se a minha experiência foi efêmera na pele, como o produto daquela barraca, ficará gravada na minha vida para sempre, como uma tatuagem “de verdade”.
