Foto do mês (Edição junho de 2026): Seu voo foi cancelado
Em outros dois textos (aqui e aqui) contei minha experiência na feira de arte fotográfica Photo London, que aconteceu em meados de maio, e com este texto encerrarei a trilogia. Evidentemente, a feira acontece na capital inglesa e para chegar lá desde o norte da Escócia, onde estou passando um tempo como pesquisador honorário na Universidade de Aberdeen, a forma mais rápida e barata é, infelizmente, voando.
Aberdeen é uma cidade portuária, construída em granito e com economia voltada para atividades em alto mar, principalmente envolvendo petróleo e hidrogênio. Seu clima, segundo a classificação de Koppen, é temperado oceânico (Cfb), mas segundo a minha é insalubre com vento cortante. A chuva e o frio são constantes, até no período chamado verão, que se inicia agora. Por estar tão ao norte, aproximadamente na latitude 57, as noites de primavera e verão são claras, mas também suscetíveis ao aparecimento de auroras boreais.
Por isso, logo que cheguei à cidade no final de abril já comecei a monitorar a atividade solar na expectativa de alguma aurora. Mas com o céu frequentemente nublado, controlei a ansiedade e parei de ver os prognósticos solares. Até que o céu finalmente abriu no dia anterior do meu voo à Londres para a feira. Então pesquisei se havia chance de auroras, e sim, uma explosão solar considerável havia sido registrada, com possibilidade de colorir os céus ao norte da Escócia… no dia seguinte, bem quando eu estaria em Londres.
No dia em que vi o alerta, o tempo fechou e com o frio que fazia não arrisquei sair pra tentar ver. Mas na manhã seguinte, recebi um email dizendo que meu voo para aquele dia havia sido cancelado e me ofereceram outro para o dia seguinte. Na hora morri de raiva, mas pensando que não perderia nem a Photo London, nem as auroras daquela noite, achei um bom negócio.
Trabalhei normalmente durante o dia que deveria estar em Londres e no começo da noite fui para a saída do porto de Aberdeen, para evitar a poluição luminosa da cidade. Mas o tráfego de navios estava tão intenso que era até pior do que as luzes da cidade mais ao fundo. Para piorar, tinha muitas nuvens, chuva e vento, muito, muito vento, de chacoalhar o tripé e borrar muitas fotos que pareciam boas dessa noite.
Já cansado do vento gelado e úmido na cara, vendo apenas nuvens no céu, estava quase para desistir. Por volta de meia noite e meia, as nuvens começaram a abrir, mas o horizonte ainda estava claro. E obviamente seguiria claro pelo resto da noite. Fiz uma foto do céu para ver se tinha algum sinal diferente, já achando que ia bater em retirada. Mas, entre as nuvens, parecia que havia uma coluna azul e tive que ficar esperando que o céu abrisse.
As nuvens não chegaram a dissipar totalmente, mas cobriram o horizonte já clareando. As luzes dos navios iluminaram o molhe de entrada do porto por um lado, enquanto as luzes da cidade iluminaram o simpático farol pelo outro. E, por mais de uma hora, a magnetosfera iluminou a parte um pouco mais escura do céu, com auroras visíveis a olho nu por cima da cidade. Logo acima das nuvens ficou uma camada constante de auroras verdes e as vezes um pouco roxas. De vez em quando, colunas azuis e roxas, que pareciam cinza ao olho humano, passavam mais pelo alto.
E assim, combinar a claridade da paisagem, a claridade do céu e o vento fizeram dessa aurora uma das mais difíceis de fotografar. Pouco antes das duas e meia o céu já estava tão claro que fotografar as auroras já era quase impossível, mesmo que elas ainda estivessem visíveis. Então, decidi encarar os quarenta minutos de caminhada para casa. Cheguei com o céu de primavera já bem claro e com o desespero de ter que pegar o ônibus para o aeroporto algumas horas mal descansadas depois. Acordei quebrado e passei o dia com sono, mas aquelas quase duas horas de auroras me compensaram para sempre aquele voo de uma hora e meia cancelado.
