Mil palavras: O melhor ano da década para ver auroras boreais

 

Com o inverno no hemisfério norte e a chegada da noite polar em altas latitudes, o fenômeno das auroras (um dos mais espetaculares do planeta) é facilmente visto nas porções de terra mais boreais da Terra. Com isso, ano após ano, mais fotografias do espetáculo celeste noturno vem aparecendo na internet nessa época de final de ano. E, com as fotos, também surgem as polêmicas em torno de expectativas e realidade. 

 

Muita gente gasta um rim para viajar a locais gelados e caros na expectativa de ver aquilo que as fotos prometem – céus extremamente coloridos, completamente tomados pelo fenômeno. Aí vem a decepção: o que as pessoas vêm frequentemente são céus nublados ou auroras relativamente “normais” – uma banda verde tomando o céu – e pensam: “é só isso?”.

 

Nem preciso falar o quanto odeio essa reação tosca, decepcionada pela expectativa de uma realidade criada nas mídias digitais. Afinal, o fato de poder viajar até um local isolado para ver auroras por si só já é um privilégio imenso e desdenhar do fenômeno é sintoma de um modelo de turismo que vende a “experiência instagramável”, sem se dar conta de explicar como as auroras realmente são formadas (explico brevemente no meu portfolio).

 

E esse tipo de turismo também vem sendo alimentado, ao menos desde 2022, pela possível “maior oportunidade para ver auroras da década”, pela suposta maior atividade solar de um ciclo natural que dura dez anos. Esse tipo de propaganda turística predatória aumenta a expectativa exponencialmente, se alimentando do medo de perder a oportunidade (famoso FOMO, Fear Of Missing Out), que só se repetirá na próxima década. 

 

Sim, o Sol tem um ciclo de atividades que varia em um período de aproximadamente onze anos. Quanto maior a atividade, mais explosões que bombardearão a terra com radiação, formando mais auroras. Desde 2023, o Sol está próximo ao seu pico, que diminuirá nos próximos anos e chegará ao seu nível mínimo daqui há cinco, seis ou sete anos. Então a atividade solar aumenta novamente, chegando ao próximo pico de atividade daqui a 10-12 anos. Os números não são precisos, pois o ciclo é irregular, sendo 11 anos a média entre um pico de atividades e outro. 

 

No entanto, as empresas de turismo que vendem a “oportunidade da década” não contam que nos anos de intensidade solar menos intensa também há explosões fora do comum e auroras boreais intensas. Por exemplo, das maiores atividades solares que já presenciei em minhas quatro expedições boreais, a mais intensa de todas foi em 2018 (foto abaixo, publicada na National Geographic Brasil), quando o Sol estava longe de seu pico. E a única noite que não vi auroras (ou seja, a atividade solar estava fraca) com condições meteorológicas favoráveis foi em 2023, quando o Sol já estava quase atingindo o pico de seu ciclo natural. Ou seja, as oportunidades de ver auroras boreais são constantes, uma vez que o céu noturno não tenha nuvens, que são o maior obstáculo para vê-las.

 

Acampamento sami – Abisko, Suécia (2018). ISO 1600, f/2.8, 8 segundos

 

Do ponto de vista fotográfico, a minha regra é assim: auroras fracas rendem boas fotos artísticas, pois possibilitam longas exposições, revelando cores e padrões que os olhos humanos não são capazes de enxergar. Em contrapartida, as auroras fortes são menos fotogênicas, pois se a exposição da câmera for muito longa, o brilho maravilhoso que encanta os olhos vai se tornar um borrão sem definição na fotografia. 

 

Separei um exemplo de fotos que fiz propositalmente em minha última (e saudosa) expedição para ilustrar a situação usando os arquivos jpeg nativos da câmera sem nenhuma edição adicional. Abaixo, a foto da esquerda foi feita com ISO 12800, abertura da lente de 2.8 (isso é muita entrada de luz) e dois segundos de exposição. A da direita, tentando reproduzir o que via com meus olhos, tinha o mesmo ISO, mesma abertura e 0,3 segundos de exposição, ou seja, a primeira tem quase 7 vezes mais luz entrando no sensor. A visão de cada pessoa é única e muito diferente da câmera, então este não é um teste objetivo, mas meramente ilustrativo, pois eu conseguia ver a igreja e ajustei a câmera para que a aurora fosse fotografada o mais próximo possível de como eu a via.

 

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Igreja nórdica nas ilhas Lofoten (2024). Jpegdireto da câmera. ISO 12800, f/2.8. Foto à esquerda com 2 segundos de exposição e à direta com 0.3 segundos.

 

Vendo só esse borrão verde, seria até razoável entender a frustração inicial de turistas sem noção esperando ver a olho nu o espetáculo de cores, como na longa exposição. Mas isso esconde o fato de que esse borrão se mexe, muda de cor, aumenta, diminui e pode ficar mais forte logo em seguida. Também, nas noites anteriores e seguintes a esta, as auroras vistas a olho nu foram todas bem melhores do que na câmera. E essa é a noção que quem viaja aos polos deve ter e merece ser repetida: cada noite é única e quanto mais longa a viagem, maiores são as possibilidades de não ter que contar com a sorte para ver as auroras mais impressionantes. 

 

Para compensar e ilustrar melhor a mensagem que quero deixar, separei o exemplo oposto. Novamente, um arquivo jpeg extraído diretamente da câmera, sem edições adicionais, de duas noites anteriores às fotos de cima. As auroras ficaram tão intensas que iluminaram o asfalto, fizeram sombra nas pessoas que vinham comigo (que por sinal ficaram estonteadas com o espetáculo) e arruinaram a foto com esse borrão brilhante, sem cores e sem definição. Na câmera usei o mesmo ISO e a mesma abertura das anteriores, e uma exposição de 0,8 segundo. Posso garantir que além do verde, víamos amarelo, vermelho e azul, mas prestei mais atenção no espetáculo que acabei vacilando na foto.

 

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Foto de uma atividade muito intensa de aurora arruinada por uma “longa” exposição de 0.8 segundos (ISO 12800, f/2.8)

 

Para comprovar minha teoria (ironia) de que as auroras fracas são as que rendem melhores fotos, mostro abaixo uma que tenho muito carinho e até recebeu uma menção honrosa no IPA. Ao vivo, o que via era um verde bem fraco acima das montanhas. Mas pela atividade de auroras daquela noite, sabia que a câmera poderia revelar muito mais do que os olhos poderiam ver. Montei o tripé num frio horroroso, ajustei o ISO para 16000, a abertura da lente de 2.8 e chutei que 5 segundos seria uma boa exposição. Olhei a foto rapidamente na tela da câmera, comemorei, guardei tudo e voltei pra casa feliz com aquela foto e com todas as auroras que havia visto naquela noite, mas difíceis de fotografar. 

 

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Fairy tale sky – ISO 12800, f/2.8, 5 segundos

 

Então, por fim, qual o melhor ano para ir assistir a um dos maiores espetáculos da Terra? O ano que puder! Se puder ir no pico do ciclo solar, vá. Se não, se prepare bem e organize as economias para maximizar as chances de ver o céu colorido dos pólos quando der. Sem FOMO, sem dívidas e sem ansiedade gerada pelo mercado de turismo predatório. De todas as formas, é imprescindível estudar o fenômeno e a região a ser visitada (países do norte no fim/começo de ano ou Nova Zelândia no meio do ano) para saber o que esperar. Também tenha a consciência que as nuvens são suas piores inimigas, que cada noite é única e as auroras se manifestam de forma diferente, às vezes mais fracas, às vezes mais fortes e, em menos ocasiões, muito, muito fortes, independente do momento cíclico que o Sol está.