Tapajós Vivo!

 

Em meio a um bombardeio constante de barbáries socioambientais, todas as lutas que barram retrocessos devem ser celebradas. Se o momento atual da humanidade não permite avanços na conservação da biodiversidade, do meio ambiente e melhorias no modo de vida de 99% da população global, conseguir não piorar as coisas é motivo de retomar as esperanças de conter danos e construir as condições para, enfim, reverter a catástrofe do capitaloceno. 

 

Ainda assim, é preciso reconhecer que certos impactos são irreversíveis, pelo menos no curto período de vida das próximas gerações. O clima não voltará a ser o mesmo antes da industrialização imposta pela Europa. Os solos de áreas desmatadas não serão os mesmos após tanto fertilizante sintético e tanto veneno. Os ecossistemas não serão os mesmos sem as centenas de espécies extintas nas últimas décadas. Também os rios não serão os mesmos durante várias gerações com os metais pesados da mineração e a dragagem de seus leitos para facilitar o escoamento de matérias primas baratas até o centro do capitalismo. 

 

Aliás, esse foi o papel que as ex-potências coloniais impuseram aos territórios invadidos e alguns deles, como o Brasil, continuam seguindo o roteiro à risca mesmo após séculos. Muda a mercadoria, da madeira, ouro e borracha para o milho e a soja, mas a lógica segue a mesma. Ao invés de planificar o beneficiamento local da matéria prima para atender as demandas sociais, respeitando os limites ambientais e a biodiversidade, os mecanismos neocoloniais se aprofundam em grandes acordos de livre comércio.

 

Essa demanda internacional por matérias primas baratas pressiona o desenvolvimento de infraestruturas que, na maior parte das vezes, é incompatível com os ciclos da natureza e com os anseios das populações locais. E esse é exatamente o caso da privatização hidroviária e do plano de dragagem do Rio Tapajós. Promovido pelo governo brasileiro e sendo combinado com as empresas do agronegócio, Estados Unidos, União Europeia e, talvez, com os russos, só faltou combinar com quem habita o rio e quem dele tira seu sustento diário. 

 

Essa licitação para dragagem foi lançada sem consultar as populações indígenas e ribeirinhas locais, o que levou a 33 dias ininterruptos de mobilizações intensas entre janeiro e fevereiro. Após uma série de manifestações e da ocupação do porto da Cargill em Santarém (PA), o enfrentamento não só barrou a licitação para dragagem, mas conseguiu a revogação do decreto 12600/2025, que previa a privatização dos processos hidroviários no rios Madeira, Tocantins e Tapajós.

 

Com isso, os povos indígenas e algumas poucas organizações políticas locais mostraram que é possível e necessário organizar as lutas contra os grandes retrocessos socioambientais. Enquanto o presidente, seu partido e toda sua órbita de movimentos sociais pularam carnaval, aqueles povos que vivem do Tapajós deram uma aula de esperança, vencendo essa importante batalha. E agora festejam, não com fantasias e desfiles, mas com a sobriedade de cumprir com a dura tarefa de salvar um pedaço do mundo. Cabe a nós a organização para salvar o resto.