Fundo do baú #2: O céu noturno nos pertence!
Cada vez mais o céu noturno aparece nos noticiários. Seja pelas belas explosões de auroras polares, seja pela ganância de alguns bilionários que, com seus milhares de pequenos satélites, estão colocando em risco o estudo do universo profundo, sistemas de observação e monitoramento de meteoros e até o próprio lançamento de novas missões espaciais.
O infinito que cerca a Terra está sendo impermeabilizado, especialmente nos últimos cinco anos. Tudo isso sem um aparato jurídico internacional que regulamente as operações espaciais e, muito menos, compartilhamento de informações entre agências estatais e privadas. Essa falta de regras para operações espaciais quase resultou no choque de uma nave da CAS Space com um satélite da Starlink, em dezembro de 2025. Os dois objetos se cruzaram a somente 200 metros de distância em uma órbita de 560 km da Terra.
Do ponto de vista operacional, o problema não está necessariamente na quantidade de satélites, mas sim em suas trajetórias incertas. É estimado que os satélites da Starlink estejam fazendo por mês cerca de quatro manobras de segurança para evitar choques no espaço! Isso significa que, a cada semana, o mapa dos objetos em órbita é alterado, impondo uma imprevisibilidade e muita incerteza para futuros projetos espaciais.
Do ponto de vista humanitário, perdemos o direito a um céu noturno livre de poluição, seja ela luminosa da Terra, seja do próprio espaço, inundado com artefatos terrestres que brilham de noite.
Para mim, o mais assustador foi a velocidade que se deu esse processo. Me lembro quando adolescente, há uns vinte e poucos anos atrás, que gostava de acompanhar as passagens da Estação Internacional Espacial (ISS) ou de algum dos 66 satélites da constelação Iridium, de telecomunicações. Por suas características, esses objetos eram visíveis a olho nu aproximadamente 40 minutos após o pôr do sol e, por isso, seu avistamento a olho nu era um evento ansiosamente esperado e planejado. Era bem mais difícil avistar alguma passagem de satélite com o céu completamente escuro e, ainda assim, seu brilho era muito fraco. Agora, é só olhar para cima em qualquer hora da noite e em algum momento vai ter um brilho se arrastando pela abóbada celeste, arruinando alguma foto da Via Láctea ou a sensação de que ainda há espaços livres das disputas antropocênicas.
Resgato essa foto feita em Caçapava (SP), em julho de 2018, por ocasião da disputa entre Starlink e CAS Space, no contexto em que a Europa planeja rivalizar a corrida da internet satelital com Musk e a SpaceSail planeja ter 15 mil satélites de comunicação em órbita em menos de cinco anos. Essa foto é um panorama vertical composto por quatro fotos horizontais, onde a poluição luminosa da cidade de São José dos Campos foi usada como recurso para isolar um elemento da paisagem, a arvorezinha em um pasto no topo de um morro.
Para fazer essa foto não tive que lutar contra milhares de satélites. Por isso, a usei como parte da campanha #saveournightsky (salve nosso céu noturno), uma mobilização internacional em plena pandemia de COVID-19 (em 2020). Na época, a campanha fazia referência ainda aos primeiros planos da Starlink de dominar o espaço. A comoção foi grande, foi minha única foto que “viralizou” pelo Instagram (com mais de 700 curtidas “orgânicas”), mas perdemos a batalha. Infelizmente, fazer fotos como essa está cada vez mais difícil e agora resta a esperança e a mobilização contínua para que não se torne impossível já no curtíssimo prazo.
Abaixo, reproduzo o texto que acompanhou a foto no Instagram:
O céu noturno talvez seja um dos elementos da natureza que mais fascinou o ser humano em toda sua história natural. Seja pelo medo, pela apreciação, pela localização, pela ciência, todas as formas de civilização desenvolveram profundos conhecimentos sobre astronomia e se basearam nela para boa parte de suas atividades. Mas foi somente no século XX que a humanidade pôde sair da sua casa para vê-la de fora. Desde então, todas as missões espaciais deixaram algum tipo de lixo no espaço e estima-se que haja cerca de 330 milhões de detritos maiores de 1mm orbitando a Terra nesse momento. As missões espaciais e satélites em órbita são essenciais para entendermos melhor nosso ambiente terrestre, bem como melhorar as comunicações globais. É por isso que a empresa estadunidense SpaceX resolveu lançar um projeto de banda larga mundial por satélite, chamado Starlink, com 422 satélites lançados desde o ano passado, e que frequentemente são vistos a olho nu formando verdadeiras filas de objetos brilhantes voando sobre o globo. A expectativa da empresa é chegar a 40 mil satélites e o céu de uma zona rural será parecido com o entorno de um aeroporto! Nesse sentido, a União Astronômica Internacional já alerta sobre o profundo impacto negativo dessa constelação de satélites para os estudos astronômicos, pois eles são muito brilhantes. A empresa anunciou que vai tentar diminuir a luminosidade dos satélites (medida que já se mostrou pouco efetiva, com uma redução de 55% do brilho), mas mesmo assim esse projeto impõe ao mundo todo uma interferência inédita para a contemplação e estudo do céu noturno, podendo até impedir pesquisas científicas que dependem da observação de objetos além da órbita de Netuno, bem como compromete a busca por asteróides em direção ao nosso planeta. Outras empresas como OneWeb e Amazon também têm projetos semelhantes, porém com um número reduzido de satélites. Assim, nosso belo céu noturno não estará prejudicado somente pela poluição luminosa da Terra, mas do espaço ocupado por essas empresas sem o consentimento da humanidade.
