Exposição “Paiter Suruí, Gente de Verdade”, por Coletivo Lakapoy


A proximidade aos grandes centros urbanos também significa maiores possibilidades de acesso às atividades culturais em geral, mas em especial a concertos, museus e galerias. Enquanto esse tipo de acesso à cultura é infelizmente centralizado em poucos pólos, cada visita tem que ser aproveitada ao máximo. Em uma inesperada passagem por São Paulo, aproveitei a viagem para visitar três exposições fotográficas, ainda que, em princípio, meu maior interesse fosse na do concurso de vida selvagem, da qual escrevi no mês de outubro. Mas antes de ir ao Museu Catavento, passei rapidamente pelo Instituto Moreira Salles, que abrigava duas exposições que me surpreenderam muito positivamente e valeram a visita por si só.

 

A primeira, de Gordon Parks, com fotografias das décadas de 1940 a 1970 sobre o aparteid, o racismo, a vida e a luta do povo preto nos Estados Unidos. Esta exposição está em cartaz até primeiro de março de 2026 e, por isso, ainda terei tempo para escrever sobre ela com a devida calma e atenção que a exposição e o assunto merecem. 

 

A segunda, que mais me surpreendeu em todos os aspectos, se chamava Paiter Suruí, Gente de Verdade. A exposição reúne mais de 800 fotografias feitas pelo Coletivo Lakapoy, um coletivo de indígenas Paiter que usa a fotografia como arma de resistência. 

 

Até a década de 1960, o povo Paiter vivia no centro do atual estado do Mato Grosso. Mas a expansão do agronegócio e a abertura de rodovias para colonização da borda sul da Amazônia no período da ditadura civil-militar (1964-1985) empurrou a etnia, dentre muitas outras que habitavam a região, para o norte, onde hoje é o estado de Rondônia. Essa expulsão do território e o contato com brancos resultou no etnocídio do povo Paiter, que além de lutar contra latifundiários e madeireiros, também receberam a herança sanitária da colonização europeia, como o sarampo e a gripe. 

 

De cerca de cinco mil Paiter, estima-se que apenas 300 resistiram após o contato com brancos. O Estado passou a denominar esse povo como Suruí e, em 1976, reconheceu seu território entre Mato Grosso e Rondônia, com 276 mil hectares. No entanto, somente após muitos anos de organização e luta indígena é que posseiros e madeireiros foram finalmente expulsos do território demarcado e a comunidade passou a aliar o conhecimento tradicional ao científico positivista para fomentar um desenvolvimento local orientado à conservação.

 

Com a mesma ferramenta que historicamente foi usada para promover uma visão colonizadora do mundo e de idealização dos povos originários, o povo Paiter conta sua própria história, mantém viva sua luta pela floresta e revela um futuro em construção. A primeira câmera fotográfica chegou ao território em 1969 e, segundo o Coletivo Lakapoy, a ideia no momento era de que ela roubaria as almas Paiter. Mas, ainda segundo o Coletivo, “hoje nossas próprias lentes contam quem somos”. 

 

O Coletivo Lakapoy surgiu em 2022 e unificou a comunidade na organização do material fotográfico elaborado pelas diversas câmeras deixadas no território desde a década de 1970. Fotografias foram reveladas, digitalizadas, novos materiais foram produzidos e, após o término da exposição no IMS no início de novembro de 2025, ela seguirá para a Terra Indígena Sete de Setembro, onde foi integralmente produzida e de onde ela realmente pertence. 

 

 

Com curadoria de Txai Suruí, Lahayda Mamani Poma e Thyago Nogueira, supervisão de  Almir Narayamoga Suruí e fotografias de Ubiratan Gamalodtaba Suruí, Oyexiener Suruí, Gabriel Uchida, Christyann Ritse, Kennedy Suruí, Txai Suruí, Oyago Suruí, Samily Suruí e Oyorekoe Luciano Suruí, a exposição logo de cara reforça o caráter coletivo das fotografias. Isoladas, podem parecer estranhas em uma exposição de “arte fotográfica”, pois retratam os aspectos da vida cotidiana Paiter. Festas de aniversário, crianças brincando, esportes, fotografias em preto e branco coloridas com tinta, fotos desfocadas etc. Mas é exatamente no conjunto que as fotografias ganham força e superam uma mera exposição de arte fotográfica. 

 

 

Segundo conta Ubiratan Gamalodtaba Suruí, esta exposição ainda é o início de um projeto maior de mapeamento dos acervos fotográficos das aproximadamente 40 aldeias da Terra Indígena Sete de Setembro, onde vivem mais de 2000 pessoas. “A gente quer envolver todo mundo, porque é uma forma de recontar nossa história”. Em um contexto mais amplo, o fotógrafo afirma que “nestes novos tempos, a fotografia é uma forma de resistência para os povos indígenas do Brasil.”

 

 

Intencionalmente ou não, a exposição sensibiliza para o papel da fotografia na luta coletiva pela vida e pela Natureza, contra etnocídios e ecocídios. Ao abrir seus álbuns de fotografia, o povo Paiter Suruí convida à práxis – reflexão e ação por um mundo plural e ambientalmente justo. Paiter, que significa “gente de verdade”, nas palavras das curadoras, “pensa na coletividade e representa todas as formas de vida”, e é como “uma samaúma”, pois as “raízes estão no chão dos ancestrais”, os “galhos alcançam o mundo.” Ao alcançar o mundo através da fotografia nos ensina que, como toda ferramenta, pode ser usada para qualquer fim. A “gente de verdade” decidiu usar como instrumento de diálogo e autodeterminação sobre o território e, consequentemente, das florestas Amazônicas, da biodiversidade e do clima global.